Forum de Ideias

O Instituto de Estudos Avançados em Humanidades da PUC-Rio foi criado em 2009 com o intuito de apoiar, fomentar e promover ações acadêmicas interdisciplinares e interdepartamentais.

Durante esses nove anos de existência do IEAHu, muito se avançou no Brasil e no mundo, em termos de políticas públicas, em direção a uma incorporação acadêmica da necessidade da construção interdisciplinar de saberes. Essa tendência chegou mesmo a se tornar, em alguns casos, imposição institucional - tácita ou explícita cumprida muitas vezes pro forma a fim de angariar apoios relevantes. Por tais razões, falar de interdisciplinaridade hoje, quase dez anos após a criação do IEAHu, já pode soar como mero modismo ou, pior, como submissão acrítica a ideias que, embora ainda jovens, já se tornaram pré-concebidas.

Ainda assim, permanecemos a léguas de distância da efetiva incorporação, em nossas práticas cotidianas de ensino e de pesquisa, de uma verdadeira interdisciplinaridade. A começar pelas estruturas departamentalizadas de nossas universidades, que se refletem na produção bibliográfica altamente especializada e na pequena circulação das ideias axiais desenvolvidas em cada ramo do saber. A fragmentação dos escopos e a pouca permeabilidade dos métodos de cada área, subárea e subsubárea divisões que cada vez mais regressam ao infinito - tornam quase que inúteis os esforços que têm sido feitos no sentido de reverter a já secular atomização intelectual universitária. Logo, se por lado a interdisciplinaridade parece ter se tornado palavra de ordem, por outro lado está fadada a ser apenas um horizonte de atuação, que tanto mais se distancia quanto mais procuramos dele nos aproximar.

Considerando esse panorama atual, o IEAHu se propõe a provocar um debate a respeito do que significa a interdisciplinaridade, procurando dar algum estofo para a reconhecida, mas nem sempre fundamentada, necessidade da sua prática. Para isso, será preciso ainda, evidentemente, colocar em foco e em discussão os próprios termos que o batizaram: faz sentido, hoje, falar de ‘Estudos Avançados’? E, sobretudo: o que podemos entender, atualmente, pelo rótulo ‘Humanidades’? Será possível descolar as Humanidades de uma noção eurocêntrica do humano, que é pilar da própria compartimentação de que a universidade é vítima e que o IEAHu visa pôr em causa? Assim sendo, antes de mais nada, urge repensar a própria noção de humano’, a fim de evitar um certo universalismo globalizante que sempre corre o risco de converter-se em etnocentrismo travestido de humanismo.

Nesse sentido, será preciso recolocar a noção de ‘Humanidades’ segundo os problemas que emergiram na contemporaneidade. Ao mesmo tempo, isso só ocorrerá se for possível tornar mais fluidas as barreiras que impedem uma reflexão transversal a respeito do assunto: entre disciplinas, nacionalidades, identidades, etnias, gêneros, continentes, humano e não humano, é necessário ousar perguntar o que significaria, em termos de política universitária, a crítica, o questionamento, o abandono, a manutenção ou a ressignificação das nossas Humanidades.

Assim, a exemplo das práticas artísticas que já foram capazes de dissolver fronteiras e de transversalizar conceitos em prol de uma construção coletiva do pensamento sobre o próprio fazer artístico, o IEAHu pretende ser o lugar propício para se desenvolver um pensamento acadêmico que possa ser também extra-acadêmico, teórico-prático e político. O Instituto não pretende desempenhar funções próprias a um departamento ou a uma agência de fomento, sob pena de renunciar àquilo mesmo para o qual foi criado. Em vez disso, deseja propor

contatos, comércio e fluxo - não de mercadorias nem de capitais, mas do pensamento não capitalizável.

Com esse intuito, o IEAHu propõe reunir uma pequena coleção de textos teóricos que abordem ou ao menos tangenciem os temas aqui citados. Começamos com aquele que Beatriz Resende escreveu especialmente para a ocasião do lançamento do nosso Edital para Apoio a Eventos Interdisciplinares, em 10 de março de 2017, e gentilmente nos cedeu para este site. Convidamos todos os interessados a nos enviarem suas propostas e esperamos poder compor um belo mosaico de ideias ao longo do tempo. 

 


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